O QUE APRENDI COM UMA CRIANÇA DE TRÊS ANOS DE IDADE

Recentemente visitei minha família no interior. Além do que geralmente faço por lá – me deliciar com os temperos da comida de casa, aproveitar os colos, brincar com a cachorra, conversar pra caramba e passar calor – agitei um programa que há tempos não fazia: ir pro parquinho.

Tenho uma prima de três anos e ela me ajudou a fugir do tédio que começava a me cercar. Lá fomos nós: eu, minha priminha, minha irmã e minha tia.

O parquinho é o mesmo onde brinquei quando criança e o mesmo que ia com minha amiga e o filho dela. Faz um bom tempo que eles moram longe, então fiquei vários anos sem muito contato com crianças. Eu estava destreinada, aguardem.

O primeiro problema apareceu logo que saímos de casa. Ela chorou porque queria ir num carro e não no que iríamos e, nessa, minha tia me salvou.

Começou a falar do parquinho eeee o parquinho oba quem vai no parquinho, e logo o choro foi embora. Problema resolvido! No parquinho, seria tudo por minha conta. Minha irmã e minha tia aproveitaram pra sentar, relaxar e bater um papo. Justo.

tarde no parquinho

Mal descemos do carro e ela já saiu correndo. A falta de treino, leia-se faz tempo que não corro e subo e agacho e corro de novo e me preocupo com possíveis fraturas e etecetera, começou a dar as caras.

Mas pausa pra contar que ela se encantou com várias coisas, o que significa que gostou dos brinquedos diferentões e coloridos – e tá moderno esse parquinho agora, hein? – e também das pedras no chão. Eu, por minha vez, me encantei com quanta vida tinha por ali. Reparei que o “castelo” (que antes tinha o escorregador mais legal da cidade) nem era tão grande assim, até tive que me abaixar pra entrar.

Passados os primeiros minutos de corre-corre e “ufa, lembrei como é isso aqui, tá tudo sob controle” ela quis o que menos queria. Ela desejou o que eu mais temia *GRITA*!

Ao lado do parquinho tem uma pista de skate com uma espécie de globo no centro, e qual é a diversão da criançada procopense? Escalar até o topo e descer escorregando.

Eu e muitas crianças perdemos alguns shorts que rasgavam de tanto sobe e desce, um clássico da minha cidade. Mas lembranças a parte, eu estava com uma sandália escorregadia, a pista é bem lisa e preferi não subir no globo evitando esforço e um possível mico. Talvez hoje eu fizesse diferente, talvez.

E lá fomos nós, fui até a base do globo com ela e o objetivo era subir. Eu fiquei meio assim, com medo dela se machucar e não estimulei a subida. Acredito até que tenha dito alguma coisa sobre ser perigoso ou ela ser muito pequena. Mas crianças estão aí pra desafiar as coisas que enfiam na nossa cabeça.

Rapidamente outras duas meninas interagiram com a gente, perguntaram o nome da minha priminha e, não só a estimularam a subir, como a ajudaram. E deu certo! É claro que deu certo. Deu certo porque era possível sim. Não foi fácil pra ela, mas a vontade de se juntar às outras crianças e viver a experiência era maior.

E o apoio que as outras meninas lhe deram foi bonito de ver. Claro, minha prima não analisou riscos como eu. Até por isso fiquei ali. E a única coisa que disse depois disso foi, “beleza, vamos lá!” e “senta pra escorregar” porque se ela se desequilibrasse no topo do globo, podia cair pra trás. Outros meninos se juntaram à trupe e meu papel era empurrar os menores pra ajudar na escalada.

Que emoção subir “a bola gigante do Cristo!”. Eu vivi essa emoção na infância, eu também já escalei a pista de skate da cidade. Onde o medo me pegou? Quando eu passei a achar que não era uma boa ideia se arriscar?

Ainda não sei. Sei que a tarde no parquinho não acabou. Fomos pra outro brinquedo que ela elegeu. Era pra escalar uma espécie de degraus que se moviam. Minha prima foi até ali, mal tentou subir e me disse: “não consigo”. Fosse antes da pista de skate, talvez eu tivesse a erguido e colocado lá em cima.

Mas umas crianças me ensinaram umas coisas e foi natural dizer “Será? Acho que você consegue sim. Tenta! Tô aqui com você e não vou deixar você cair”. Pronto, lá foi ela.

A única coisa que fiz foi ajudá-la a colocar o pé no primeiro degrau por ser realmente alto pra ela. De resto, eu apenas fiquei atrás dela pra segurá-la, caso ela caísse. E ela conseguiu! Subiu não só uma, mas várias vezes! Fiz questão de comemorar com ela e dizer que ela conseguiu.

E veja como algumas atitudes são realmente estimulantes. Uma menina de uns seis ou sete anos, portanto bem maior que minha prima, chegou querendo escalar os degraus também.

E ela disse “não consigo”. Repeti pra ela o que falei pra minha priminha e a felicidade da garota em ter conseguido foi lindo de ver. Comemoramos. A acompanhei em umas dez subidas e ela ficou realmente satisfeita em ter conseguido fazer algo que antes achava que não podia.

Crianças podem enfrentam desafios sim. A supervisão ou o cuidado de um adulto é importante pra criança não se meter em algo realmente perigoso ou danoso.

Oferecer apoio para a criança a ajuda a se sentir segura para poder experimentar algo novo. O estímulo é muito importante pra criança se permitir tentar. E, olha só, as vezes são elas que nos estimulam. Basta a gente ouvir. Que bela lição, meninas! Muito obrigada!

 

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Laís Valério Gabriel é psicóloga clínica na Císpela Psicologia em Curitiba. Ela acredita que tardes no parquinho podem ensinar um bocado de coisas, pra vida e pro seu trabalho de terapeuta.

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